Padre alerta Paraíba para seca verde no sertão do Estado

Pároco de Santa Cruz conta dramas e situação de de agricultores sertanejos.

O padre Djacy Brasileiro, da Paróquia de Santa Cruz, no sertão paraibano, escreveu um desabafo neste fim de semana, no qual lamenta o processo de "seca verde" que castiga os sertanejos atualmente.

O padre Djacy Brasileiro, da Paróquia de Santa Cruz, no sertão paraibano, escreveu um desabafo neste fim de semana, no qual lamenta o processo de "seca verde" que castiga os sertanejos atualmente.

Em um artigo de 16 páginas, encaminhado à redação do MAISPB, o religioso conta situações dramáticas de muitos anônimos agricultores da região.

Djacy tem testemunhado depoimentos desesperados de gente que plantou milho, feijão e outros legumes e simplesmente não vai colher nada.

Leia o texto na íntegra.


SERTÃO: SECA, INSEGURANÇA, DESESPERO, ESPERANÇA.

O sertanejo olha para o céu, e vendo somente o azul celeste, dispara, com a voz embargada: Chuva, nada! Então, está tudo perdido. Nem miilho, nem feijão, nem arroz, nem girimum e melancia. Agora, só resta lutar pela nossa sobrevivência.

Não se trata de ficção literária, ou de ouvi falar ou vi pela TV, essa triste vida dos sertanejos, neste tempo macabro de seca. Trata-se da mais pura realidade vivida pelos sertanejos da minha querida Paraíba. E, como pastor que vive neste sertão seco, torrado, com seu sol causticante e temperatura de assar ovos no calçamento, em plena manhã, sinto no meu coração, essa melancólica situação vivida pelos meus irmãos, que dependem unicamente da roça, afora, seu parco dinheiro do bolsa família ou da famigerada aposentadoria, se bem que é de algum idoso que vive na sua casa (pai ,mãe).

Aqui no meu sertão, a coisa está preta. Vejo plantação secando, o pasto se acabando, os animais comendo o que lhes sobra. Nada de roça. Passamos a semana santa sem ver a cor do maxixe, da melancia, do girimum. Agora vem o “São João” e a gente não vai ter o prazer de mastigar, sequer, uns carocinhos de milho verde. Canjica, pamonha, que nada! Só na lembrança e no desejo. Vamos ficar só na lamentação. Ainda bem que podemos fazer nossa tradicional fogueira (se se deixarem, pois, até isso, querem acabar, usando desculpas esfarrapadas.), dançar quadrilhas e ouvir nosso belo e emocionante forró pé de serra ( pena que estão desfigurando ou descaracterizando nosso forró verdadeiro.Agora é um tal de forró eletrônico, apimentado com rebolado de bundas. Até diria: é o forróbundanizado).

Além disso, para piorar a situação do sertão, no que tange à seca, com suas conseqüências nefastas, vem a onda assombrosa das drogas, da violência e do descaso generalizado. E toma cruz pesada nos ombros dessa gente, que já não suporta tanta dor...

No momento em que escrevo essas coisas, vêm-me à tona os lamentos dos sertanejos das minhas paróquias. São lamentações que comovem, entristecem, que deixam qualquer coração humano sensível e cristão dilacerado. Aqui, neste pedaço de chão nordestino, não ouço outra coisa a não ser somente lamúrias, desespero. Sinto no meu coração de pastor, uma grande aflição e uma vontade louca de sair gritando por esse mundo afora: o sertão está se acabando, e os sertanejos pedem socorro!

Quero consignar neste prolixo artigo - confesso- todas as palavras pronunciadas por essa gente sofrida deste torrão empoeirado, chão quase rachado, para que vocês, leitores, sintam no seu coração esse comovente drama, que aflige os pequeninos de Deus, que são esses homens e mulheres do campo e da cidade. São palavras que saem da boca dos sofridos sertanejos. Até diria, que vivo minha vida a ouvir, com carinho e atenção, o desabafo desses meus irmãos que merecem meu carinho, respeito e atenção.

Tudo o que vem a seguir, não se trata de sensacionalismo ou ficçã. Trata-se da realidade do seu dia a dia. Nada acrescentado por mim. É tudo original. São palavras verdadeiras do homem e da mulher do sertão paraibano. Vejamos, então, como é a vida difícil desse povo sertanejo: -Padre, cadê a chuva? E agora seu padre? O que vamos fazer? -Se Deus mandasse, agora, uma chuvinha, ah, como seria bom...! -Olha minha roça padre, e veja que nada tem a não ser mato e pedra....! -Seu padre, plantei milho, feijão, arroz, mas ta tudo perdido.Eita, já que não vou tirar nada, padre, vou ter que me virá com esse dinheiro da bolsa família.É a única coisa que resta! -padre Djacy, já pensou o que é ter muitos filhos e todos dependerem da roça e desse dinheiro do governo? Imagine seu padre, nosso sofrimento...! Eita meu Deus, mais uma seca, mais um ano de sofrimento, valhei-me meu Frei Damião, meu padim ciço, minhas mães das Dores...tenham piedade de nós! -Ê, seu padre, a gente passou tanta sede, tanta necessidade, só Deus sabe o que a gente já passou, padre! -Meu caro padre, eu vou te dizer uma coisa: ta vendo essas mãos calejadas? É porque trabalhei muito na roça. Tá vendo minha cara enrugada? É porque passava o dia na roça, seu padre. Sofri muito, padre Djacy, só Deus sabe do meu sofrimento. -Ah, seu padre, tenho vontade de morrer, pois na minha casa não tem nada para meus filhos...! -padre, dê uma chegadinha na casa de “Maria” (nome fictício), lá, a fome é grande... tem sei quantas crianças! Vá lá, seu padre! -Meu Deus do céu! Padre, na minha casa são oito pessoas, só minha sogra é aposentada... Ainda bem que tem esse ganhozinho do governo, que dá pra comprar uma feirinha e só. -0lha, seu padre, minha aposentadoria só dá para comprar meus remédios, por conta disso, falta tudo lá em casa... -Olha, seu padre, eu já comi muitas vezes angu feito com raízes de pau mocó. -Por que Deus não manda chuva, seu padre? Ele esqueceu de nós? -Padre, vamos ter que comprar rizido para o gado. Uma saca só dá para uns dois dias... a gente tá com a cabeça cheia de preocupação, porque o dinheiro é pouco... -É isso mesmo, Deus quer assim, fazer o que né? -A chuva não vem por causa desse tal de aquecimento global. Nós não temos culpa. Isso é coisa dos ricos... -Padre, me dê uma ajuda para eu comprar umas coisinhas pra meus filhos que ficaram em casa... Hoje só vou colocar arroz no fogo... -Padre, janta aqui, a gente come o que tiver. Eu garanto que tem feijão e arroz. -Olha, padre, quando a chuva vai embora ,a gente bebe água dessa cisterna. -Eita, padre djacy, este ano vou comer o pão que o diabo amassou: é seca, e meus filhos desempregados. E eu também! -dizem que é o fim do mundo: seca, terremoto, fome, violência, guerras. Padre, o que o senhor acha disso? Vamos morrer mesmo? É o fim de tudo? Eu ouvi uma pregação de missionário que dizia que era o fim do mundo, e a gente se convertesse, caso contrário, agente iria para o inferno... Além disso, seu padre, o inferno para nós? -padre, me diga uma coisa, seja sério comigo: a religião é pra animar a gente, trazer esperança, falar de coisas boas ou é para falar de inferno, fim do mundo? Já ando com medo dessas coisas. -Minha nossa Senhora, além da seca, a gente não tem mais sossego, está roubando até as nossas galinhas do chiqueiro. Essa semana passada, seu padre, roubaram algumas galinhas do meu chiqueiro. Agente não pode nem mais engordar nossos porquinhos, os bandidos levam tudo... Acabou o que era bom... -padre, roubaram o motor da minha roça, era como aguava alguma plantinha... -Padre, a gente tava dormindo, e sem a gente perceber, o ladrão entrou na nossa casa e levou um bocado de coisa. Eita, inferno! -Ontem, padre djacy, a gente ia para a cidade fazer nossa feirinha, e uns vagabundos, malandras, mandaram parar o carro e disseram: é um assalto. Levaram a gente pro mato e roubaram tudo. Além disso, deram um tiro no carro... Ninguém dos sítios tem mais sossego, acabou! -Padre, fizeram um arrastão lá na estrada do sítio... Roubaram mais de quarenta pessoas. Levaram tudo. Ficamos o tempo todo deitados e os bandidos com armas apontadas para nós... -Meu Deus do céu, de primeiro, padre, a gente armava nossa redinha lá fora, e dormia tranqüilo..., hoje, a gente não tem mais esse prazer de dormir na área... A coisa é outra, adeus sossego, adeus paz no sítio...! -Fui tirar meu dinheirinho, e quando entrei nos correios os marginais disseram: é um assalto. Levaram o dinheiro de minha feira e quando cheguei em casa, padre, me deu uma dor de cabeça do diabo.Quase que eu ia para o beleléu....! -ontem, padre, levaram minha moto e mais duzentos reais. Passei o mês trabalhando, depois vem esses vagabundos safados roubar meu dinheiro. Pense numa raiva! -estamos no mato sem carro, seu padre Djacy. Agora, salve-se quem puder...! -padre, me dê uma ajuda para eu comprar meu remédio... -fulana tal, (faço questão de não colocar o nome da pessoa) seu padre, tá grávida. Coitada, passa uma fome... Tá tão magra, desnutrida...! -Padre Djacy, fique sabendo de uma coisa: quando um homem da roça vem pedir alguma coisa, seja pão, remédio, dinheiro, é porque é o jeito, é porque a coisa tá feia de verdade. O homem do sertão, padre, é de vergonha, ele é honesto, sério! -Deus me livre de me humilhar a doutor nenhum, Deus me livre, padre Djacy! -Olha seu padre, a gente é pobre, mas quando chega qualquer pessoa lá em casa, a gente mata a galinha que tá no chiqueiro, come feijão, arroz, cuscuz e o que tiver.A gente é pobre, mas não somos miseráveis,a gente partilha quando chega pessoa lá em casa. -Uma coisa que Nosso Senhor disse é que não podemos negar água e pão a qualquer pessoa. Deus me livre, padre, de negar pão é água as pessoas, Deus me livre. -Meu amigo, a gente não deve negar nada a ninguém. Lá em casa, graças a Deus , todo mundo é caridoso.Minha mulher não pode ver uma pessoa passando necessidade, e lá vai ela arrumar qualquer coisa pra aquela pessoa necessitada. -Vamos entrando, se sente ,fique à vontade, a casa é pobre, mas a gente tem o prazer de receber o senhor. Ou Maria, faça o café! O senhor quer café ou chá? Aceita um docinho? -Não vá agora não, fique para o jantar. -padre, ontem fui conversar fulano de tal, lá na cidade, padre, fui tão mal recebido. A dona da casa nem mandou eu entrar. Fiquei o todo tempo fora da casa, num sol quente danado. -Tem gente, seu padre, só porque tem alguma coisa na vida, tem dinheiro, carro, anel de doutor no dedo, nem olha pra nós pobres, nem dá atenção a gente, só porque a gente é pobre,seu padre. -Meu marido foi para o corte de cana em São Paulo, foi ver se arruma algum dinheiro por lá. Aqui o negócio tá preto... Ou vai, ou a gente morre de fome...! -Olha seu padre, eu bebo uma cachacinha, como o senhor sabe, né? Alivia um pouco meu sofrimento. Seu padre, vá lá em casa, e o senhor vai ver que não tem nada, nada, nada, então eu bebo e esqueço que tou com fome.... -Minha filha me pediu para comprar uma roupa ai eu disse: como vou comprar roupa, se não tenho nem pra comprar o que é mais necessário? Minha filha ficou zangada comigo, padre! Passou a tarde chorando num canto da parede. Tive tanta pena dela, mas não podia fazer nada. Desculpe eu chorar, padre. É que fico triste ver minha filha pedir uma coisa e eu não poder comprar. É triste né, seu padre? E mãe é mãe, o senhor sabe disso, né? -Tenho cinco filhos em São Paulo, ainda bem que eles mandam uma coisinha pra nós. É a nossa sorte, seu padre! Obrigado meu Deus pelos meus filhos. Proteja eles meu senhor e minha Nossa Senhora! -padre, me compra uma cartela de bingo que é para a cirurgia de minha irmã... Ela vai se operar e a gente não tem dinheiro para comprar os remédios dela... -Padre, não deixe meu pai morrer... ajude meu pai, padre, olha para ele, pelo o amor de Deus, dê uma palavra por ele... -padre, meu filho se envolveu com drogas, ah, minha Nossa Senhora. Eu penso padre, que agora tá na droga, porque não nunca arrumou emprego, nunca estudou e o pai batia muito nele. -No hospital, passei o dia esperando por uma consulta... -Triste de nós pobres, seu padre, somos tão mal atendidos pelos os doutores, eles nem olham para nós...! -padre Djacy, se Deus não olhar pra nós, não sei como vai ser... Só Deus mesmo, padre. -padre, o senhor pode rezar umas orações na minha casa? Ta parecendo tanta coisa esquisita por lá, seu padre. -Padre, pra gente estudar fora é o maior sacrifício. a gente que é pobre, sofre demais...! -Ah, seu padre, triste quem é pobre. A gente não é considerado, nem valorizado... Só em tempo de eleição. -Ontem, padre, minha sogra passou na ponte do boi morto de canoa. Ah, padre, ela estava à beira da morte (Presenciei essa dramática cena. Encontrava-me naquele local para ajudar numa reportagem). -padre, minha mãe morreu, ela passou ontem de canoa e voltou para casa num caixão, também na canoa. -padre, fui operado, na volta passei de canoa, pense como doeu a operação! Foi um bocado de gente para colocar eu na canoa. (Presenciei essa cena tétrica. Estava lá, no momento.) -eles já estão chegando, seu padre, vêm pedir nossos votinhos. Prometem para nós tudo, mas depois esquecem de nós... E assim, é toda a vida! -Esses políticos não sabem o que é sofrimento, não sabem o que é fome, sede, miséria. Eles vivem numa boa e a gente nessa desgraçada vida...Eles só comem do bom e do melhor ,e a gente só come quando aparece... -padre, pelo o amor de Deus, fale por nós, dê uma palavra por nós, grite por nós, seu padre, diga as pessoas importantes, que estão no poder, que olhem pra nós, que façam alguma coisa boa prá nós... -Um dia, padre, nossos filhos vão viver melhor do que nós, sem fome, miséria, violência... -eita, padre, quem sabe um dia este sertão melhore, afinal, a esperança é a última que morre...!

Esses e tantos outros clamores fazem parte do meu cardápio, no dia a dia do meu pastoreio. Que esses lamentos sirvam de reflexão para aqueles que vivem no mundo da mordomia, do luxo, das vaidades, do consumismo desenfreado, que vomitam de tanto comer, e que fazem festa para seus animaizinhos de estimação, com direito a bolo, chocolate e roupas especiais.

Enquanto tantos irmãos vivem numa situação degradante, miserável, outros vivem na maior abundancia, e ainda reclamam da vida. Quanto a mim, tenho a grande felicidade de estar em contato dia e noite, com esses homens e mulheres do sertão. Sinto-me feliz em conversar com eles.

Conversar com esses filhos sofridos de Deus, ouvir suas histórias de luta, de sofrimento, de dificuldades e, enfim, seus clamores pungentes, é fazer teologia, a teologia dos pobres. Aprendo a verdadeira teologia, na faculdade da vida sofrida dos prediletos de Javé. Na minha concepção, a melhor faculdade de teologia é aqui, no meio dos pobres, neste cenário de vida esmagada pela cruz do dia a dia. Aqui, fé e vida têm que andar de mãos dadas, caso contrário, é tudo hipocrisia. E essa teologia desencarnada, a - histórica, não agrada a Deus, como bem diz São Tiago: “Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma” (Tiago, 2: 17).

Não nos esqueçamos: Deus fala através dos seus filhos em agonia. E espera de nós, cristãos, uma resposta concreta: o amor! Esta é a realidade do meu sertão. É o pão nosso de cada dia. Até quando, afinal?

Padre Djacy Brasileiro

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